
Zulfat Suara,à direita,protesta contra um novo mapa eleitoral para o Congresso ao lado de um policial rodoviário do estado do Tennessee no Capitólio do estado do Tennessee em Nashville — Foto: Brad J. Vest/The New York Times
GERADO EM: 27/05/2026 - 20:15
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Na fotografia,Leona Tate,de seis anos,segura a lancheira com firmeza e arregala os olhos como se intuísse a importância de se registrar o momento. Na manhã de 14 de novembro de 1960,ela foi uma das seis meninas que romperam a política de segregação racial nas escolas de Nova Orleans,em ação até então inédita no sul dos Estados Unidos. O clique não revela que elas estudariam por um ano e meio com proteção policial e sem colegas de classe. Os pais brancos se recusaram a deixar suas filhas dividir espaço com “alunas descendentes de escravizados”.
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Seis décadas depois,uma das mais inusitadas protagonistas da luta pelos direitos civis dos cidadãos negros americanos comprou,com apoio da Universidade Xavier,o prédio do colégio. Transformou-o em museu dedicado ao histórico movimento que escancarou as táticas usadas para impedir o voto dos negros. Desgraçadamente,seus corredores terão de abrir espaço para mais uma queda de braço,agora contra o presidente Donald Trump,com aval da Suprema Corte,em meio à disputa pelo controle da Câmara,a ser decidido nas eleições de novembro.

Leona Tate,uma das primeiras seis crianças negras a estudar em colégios até então restritos a brancos,em Nova Orleans,na Louisiana em 1960 — Foto: PBS/Reprodução
Há duas semanas,Tate deu um dos testemunhos mais contundentes sobre o estado da democracia americana no Trump 2.0,em audiência pública na Assembleia Legislativa da Louisiana. Do lado de fora,centenas de pessoas protestavam contra a interrupção das eleições primárias em curso após decisão da Suprema Corte que considerou inconstitucional o redesenho de distritos eleitorais no estado “a partir de critério racial”. Foi uma vitória dos republicanos em bizantina batalha iniciada em 2024 nas cortes federais.
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— O retrocesso é gigante. Essa decisão será estudada como uma das mais racistas de nossa História — afirmou Tate.
À rede de televisão pública americana PBS,a ativista revisitou o momento exato de sua compreensão das limitações impostas apenas pela cor de sua pele. E do quão central foi a decisão de sua família de enfrentar a segregação: “Mas quando poderia imaginar viver tudo de novo em pleno 2026? A sensação de que o horror voltou é muito ruim e cansativo,mas não vou desistir de forma alguma a essa altura”.
Diferentemente do Brasil,nos EUA os deputados federais e estaduais são escolhidos em distritos normalmente traçados a cada dez anos por quem controla o poder estadual. Promulgada em 1965 em resposta à pressão da sociedade civil e dos líderes do movimento negro,a Lei dos Direitos de Voto garantiu que alguns poucos deles no sul do país tivessem maioria de eleitores negros. Números oficiais mostram que em 1940 apenas 897 cidadãos negros votaram na Louisiana. Em 1975,eram 400 mil. Em novembro,serão 1 milhão.
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A pendenga este ano no estado sulista se deu por conta da tentativa do Partido Democrata de aumentar de um para dois,do total de seis,os distritos com maioria de negros,número mais próximo dos 33% de eleitores do estrato no estado de acordo com o Censo de 2020. A Suprema Corte,no entanto,em meio ao incentivo público do presidente Donald Trump de se alterar,mesmo com cinco anos de antecedência,os mapas eleitorais onde o Partido Republicano fosse majoritário,estabeleceu limites ao ato assinado em 1965 pelo presidente Lyndon B. Johnson.
A decisão da Corte teve consequências imediatas. Na Louisiana,deve garantir a reeleição do presidente da Câmara,Mike Johnson,do Partido Republicano,que teria seu distrito redimensionado com mais eleitores negros. Outros estados da região comandados pelo trumpismo,entre eles Tennessee,Mississippi e Alabama,iniciaram imediatamente o redesenho de seus mapas,extinguindo distritos com maioria de eleitores afro-americanos. Em Memphis,o distrito da cidade onde nasceu Aretha Franklin e Martin Luther King foi assassinado,se diluiu em três. Em todos,a maioria é dos que vivem nos subúrbios,em sua maioria brancos.


Johnson incentivou os estados da região a eliminar “distritos criados a partir de critérios raciais,agora inconstitucionais”. Na ponta do lápis,busca impossibilitar a reeleição de ao menos 12 deputados federais negros e do Partido Democrata em região marcada pela defesa oficial da escravização dos negros até a derrota na Guerra Civil Americana (1861-65). E onde as cores azuis e vermelha,identificadas,respectivamente,com democratas e republicanos,podem ser substituídas sem erro por branca e preta. “Aqui,80% dos brancos votam republicano,e 90% dos negros democrata. É falacioso separar raça de preferência partidária”,afirmou à PBS o mais célebre analista político do estado,Jim Engster.
Fundador da Black Voters Matter (BVM,sigla em inglês para “eleitores negros importam”),referência na denúncia da supressão do voto de minorias e no registro de eleitores negros nos EUA,Cliff Albright vê uma Casa Branca extremamente impopular [a média do New York Times crava apenas 37% de apoio ao Trump 2.0] interessada em vencer as eleições de novembro às custas da representação dos negros. E munida de “argumento cínico e hipócrita”,o combate a lógicas raciais no desenho dos distritos.
— Minha interpretação não é exagerada. Testemunhamos com Trump o retorno aos anos da segregação racial,das leis Jim Crow,no sul dos EUA. É especialmente cruel os republicanos argumentarem que o interesse deles é justamente combater o racismo — afirmou Allbright ao GLOBO.
Sua constatação não é meramente opinativa. Com o novo mapa,mais de 46 mil votos de negros já sufragados foram sumariamente descartados na Louisiana. Aos que foram à Assembleia Legislativa protestar,o governador Jeff Landry,aconselhou “levar o lamento à Suprema Corte”.
Na Carolina do Sul,onde 26% dos eleitores se identificam como negros,o BVM se juntou a outras ONGs em tática bem diferente — incentivar o voto em massa no primeiro dia das primárias em sinal de apoio ao mapa eleitoral em vigor. Quebrou-se um recorde local os legisladores vetaram a proposta de redesenho defendida pelos trumpistas
—Indecentemente poderoso,o ataque de Trump aos negros é também uma armadilha aos republicanos. Ele estimula,em efeito bumerangue,um maior comparecimento dos negros em novembro e em 2028,quando seremos decisivos para determinar seu sucessor — aposta Albright.
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