
Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca — Foto: Reprodução
Os últimos movimentos do governo de Donald Trump em relação ao Brasil chacoalharam a corrida eleitoral,mas daí a dizer que seu objetivo principal era ajudar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a superar Lula em outubro vai uma distância. Quem acompanha a política americana — e,a esta altura,quem não acompanha também — sabe que,na agenda de Trump,seus próprios interesses vêm sempre antes de todos os outros,incluindo os de seu país.
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A definição do que sejam as prioridades dos Estados Unidos varia bastante naquela cabeça alaranjada,a ponto de um dos debates mais recorrentes entre os especialistas se dar em torno do que exatamente orienta a doutrina geopolítica trumpista. Ficou bastante claro nesta semana,porém,que,embora os Bolsonaros possam ser úteis à estratégia para a América Latina,não são eles que ditam a pauta.
Prova disso é a desorientação que tomou conta da candidatura bolsonarista com o anúncio,na terça-feira,de que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos decidiu propor tarifas de 25% a uma série de produtos que,nas contas do Palácio do Planalto,respondem por um quinto das vendas do Brasil ao país. No mesmo dia,Trump postou em sua rede social uma foto da visita de Flávio à Casa Branca,chamando o filho Zero Um de Jair Bolsonaro de “um jovem inteligente que ama seu país”.
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Dias antes,Flávio divulgara a mesma foto como “prova” de que Trump havia atendido a um pedido seu para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Além de desviar a atenção dos milhões injetados por Daniel Vorcaro no filme sobre seu pai,a medida lhe permitia dizer que Lula,contrário à medida,defende bandido e não quer combater o crime.
Diante da proposta de tarifaço,quem passou a faturar foi Lula,que espertamente deixou a questão da soberania em segundo plano para acusar Flávio de se aliar a Trump contra o Pix,unanimidade nacional que os americanos puseram entre os motivos para justificar o tarifaço.
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Até então,as pesquisas internas das campanhas mostravam que o brasileiro médio achava até boa a ideia dos Estados Unidos combatendo as facções criminosas que aterrorizam a população por aqui. Meter a mão no Pix são outros quinhentos.
Vendo-se nas cordas,Flávio disse que já havia pedido a Trump para não taxar os produtos brasileiros e divulgou uma carta escrita às pressas para ser enviada a Marco Rubio pedindo que não autorizasse a taxação. Mas convenhamos: ou Flávio tem realmente o ouvido de Trump e pode ajudar a derrubar a taxação,ou ele foi apenas um papagaio de pirata pegando carona num anúncio sobre PCC e CV já programado. Como a decisão de Trump sobre as tarifas não veio ainda,seria precipitado cravar uma resposta.
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O certo é que,a cinco meses da eleição para deputado e senador que pode acabar com sua maioria no Congresso e enfrentando os piores índices de aprovação de seu mandato,Trump está mais preocupado em resolver seus próprios problemas. Nesse contexto,a guerra às drogas é bem mais útil que a do Irã,assim como proteger a economia americana da concorrência predatória.
Além disso,embora as recentes medidas sejam uma vitória da ala capitaneada pelo secretário de Estado,Marco Rubio,não há garantia de que Trump fincará pé nessa posição até julho. Basta lembrar que,há 20 dias,ele recebeu Lula na Casa Branca e combinou um cronograma para a negociação de um acordo bilateral entre os dois países.
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O que Trump fala não se escreve,e até o que se escreve pode ser revisto a qualquer momento. Como apontaram vários analistas nos últimos dias,o processo decisório em Washington é caótico,e seus rumos variam como biruta de aeroporto. “A ideia de que teremos Trump claramente do lado do Flávio até outubro é apressada e assume que ele tem uma disciplina que não é real”,diz Matias Spektor,professor na Escola de Relações Internacionais da FGV.
Não há dúvida de que Trump pretende forçar o Brasil a seguir suas decisões,como de resto todos os outros países que julgue dever algo a ele e aos Estados Unidos — o que ainda pode tumultuar bastante nosso processo eleitoral. Mas também é fácil ver que atrelar sua estratégia de campanha ao apoio de alguém que não é confiável nem para os principais aliados só pode dar muito errado.
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