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Que Jogo É Esse: Como a Copa do Mundo mudou a minha vida

发布:6/6/2026 阅读:2

Copa do Mundo da África do Sul,em 2010 — Foto: Thales Machado

RESUMO

Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você

GERADO EM: 05/06/2026 - 20:46

"Viagem à Copa de 2010 muda carreira de professor para jornalista"

O artigo relata como a Copa do Mundo transformou a vida do autor,Thales Machado. Em 2010,ele,então um jovem professor de História,descobriu acidentalmente uma promoção que o levou à Copa da África do Sul. A viagem não só realizou um sonho,como também o inspirou a mudar de carreira,do ensino para o jornalismo. Hoje,ele lidera a cobertura esportiva do GLOBO,mostrando como eventos improváveis podem redirecionar vidas.

O Irineu é a iniciativa do GLOBO para oferecer aplicações de inteligência artificial aos leitores. Toda a produção de conteúdo com o uso do Irineu é supervisionada por jornalistas.

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Toda Copa do Mundo começa antes da abertura.

Às vezes meses antes,quando saem as convocações e os torcedores começam a discutir escalações que não mudarão em nada os rumos da humanidade. Às vezes anos antes,quando uma criança vê um jogo pela televisão e decide que aquele será seu assunto favorito pelo resto da vida. E,de vez em quando,uma Copa começa de um jeito tão improvável que só faz sentido quando a gente olha para trás.

Que Jogo É Esse: assine e receba a newsletter de futebol do GLOBO,escrita por Thales Machado,editor de EsportesNa lista: Convocado por Ancelotti,Neymar terá 'last dance' com a seleção nos EUA depois de dividir novamente o BrasilDiogo Dantas: Lesão de Neymar preocupa,seleção liga alerta para Copa,mas espera recuperação durante preparação

A de 2026,para mim,começou numa madrugada de maio de 2010,diante de uma tela de computador em Belo Horizonte.

Peço licença aos assinantes da newsletter para contar uma história pessoal hoje. Prometo que ela tem mais a ver com a Copa do Mundo do que parece.

Naquele ano eu tinha 23 anos,um diploma recém-conquistado em História,alguns alunos particulares espalhados pela cidade,um trabalho de recenseador do IBGE e uma crescente sensação de que talvez estivesse procurando meu lugar no mundo no endereço errado. Não porque aquelas ocupações não fossem importantes. Eram. Mas porque eu ainda não tinha encontrado meu planeta.

E fui descobrir,só mais tarde,que meu planeta era mesmo uma bola.

Nas horas vagas eu só pensava em futebol. Sempre tinha sido assim. A proximidade da Copa da África do Sul ocupava um espaço cada vez maior na minha cabeça. Enquanto pessoas normais passavam o dia pensando em trabalho,contas ou planos para o futuro,eu gastava boa parte do meu tempo imaginando estádios que nunca tinha visto,cidades das quais mal sabia pronunciar o nome e uma tal de vuvuzela que prometia enlouquecer o planeta.

Foi numa dessas noites,depois de um dia particularmente sem brilho,que resolvi fazer o que qualquer brasileiro sem dinheiro e com imaginação fértil faria na mesma situação: abrir o Google e pesquisar se existia alguma promoção maluca que levasse alguém para a Copa do Mundo.

Eu não esperava encontrar nada. Mas encontrei. Ou melhor: encontrei uma promoção de uma escola de inglês onde eu nunca tinha estudado,nunca tinha feito aula experimental e jamais pisaria. O concurso cultural terminava exatamente naquele dia. Depois de distribuir iPods e iPads — que eram objetos de desejo tão grandes em 2010 quanto parecem pré-históricos em 2026 —,o prêmio principal seria uma viagem para a Copa do Mundo da África do Sul com direito a acompanhante.

A disputa consistia em descobrir uma senha escondida numa imagem. Parece simples.

Não era.

Arte do curso de inglês — Foto: Arquivo pessoal

A imagem parecia ter sido criada por alguém que perdeu uma aposta para um professor de História. Havia referências medievais,cenas que lembravam a Segunda Guerra Mundial,personagens que pareciam ter saído da época de Napoleão,rios,castelos,símbolos estranhos e uma quantidade de informação suficiente para deixar um candidato ao vestibular em posição fetal.

Passei horas olhando para aquilo.

Horas.

Sem descobrir absolutamente nada. O que,olhando em retrospecto,talvez fosse um resumo razoável da minha vida naquele momento.

Em algum momento desisti. Fui ver televisão. Muito provavelmente algum programa pré-Copa. Na época eu não fazia ideia de que muitos daqueles jornalistas que apareciam na tela acabariam cruzando meu caminho profissional anos depois. Quando voltei para desligar o computador,a tela estava em modo de descanso. O monitor acendeu novamente e meu olho bateu,quase sem querer,numa palavra escrita de forma estranha na margem de um rio que aparecia na imagem.

Edge (margem,em inglês)

Não achei que aquela fosse a resposta. Mas lembrei que a língua inglesa tinha várias palavras terminadas daquele jeito. Fiz então uma segunda pesquisa no Google. E,sem saber,comecei a mudar minha vida pela segunda vez naquela mesma noite.

Digitei algo como "palavras em inglês terminadas em edge". O Google devolveu uma lista pequena. Treze ou quatorze possibilidades. Fui lendo uma por uma até chegar a uma que parecia combinar com a proposta do concurso.

Knowledge.

Conhecimento.

Digitei.

A tela mudou.

Eu havia encontrado a senha. Se fosse o primeiro participante a fazer aquilo,ganharia uma viagem para a Copa do Mundo. Olhei para o relógio,já era madrugada. A promoção existia havia horas. Achei impossível e fui dormir.

Na manhã seguinte eu dava uma aula particular sobre Idade Média quando o telefone começou a tocar sem parar. Pedi licença aos alunos,atendi e ouvi uma frase que até hoje parece estranha quando repito:

Parabéns. Você ganhou uma viagem para a Copa do Mundo da África do Sul.

Convite para ir à Copa do Mundo — Foto: Arquivo pessoal

Eu nunca acreditei muito que pessoas reais ganhassem promoções,você provavelmente também duvida. Mas algumas semanas depois lá estava eu embarcando para Durban.

Sem dinheiro. Sem exagero: eu não tinha cinquenta reais guardados. Como a viagem dava direito a um acompanhante,tomei uma decisão que certamente não agradou a namorada da época. Convidei meu pai. Havia uma lógica financeira impecável na escolha: eu e ela éramos duros. Separados não teríamos dinheiro para nada. Juntos também não. Foi uma das melhores decisões que já tomei.

Papai,hoje saudável e com os 70 anos recém comemorados,tinha acabado de se recuperar de um câncer. Nunca tinha saído do país. Foi ele que me ensinou sobre Copa,bola e mundo. Se eu ia realizar um sonho que nem parecia real,fazia sentido que ele estivesse lá.

Chegamos à África do Sul cercados de vencedores de promoções de toda a América Latina. Gente apaixonada por viagens,por aventura,por turismo. Nem sempre por futebol. Descobrimos isso quando percebemos que uma das atrações mais aguardadas do pacote da viagem era um safári justamente no horário da abertura da Copa do Mundo.

Um safári. No jogo de abertura da Copa.

Eu e meu pai nos olhamos como quem presencia um crime. Antecipamos o passeio para outro dia e fomos para o Fan Fest assistir a África do Sul x México,que não por acaso abre também o Mundial deste ano. Até hoje lembro do gol de Tshabalala explodindo em Durban. É um dos gols que mais comemorei na vida. Não era do Brasil. Não valia título. Mas talvez representasse a sensação de finalmente estar dentro daquele universo que eu acompanhava pela televisão desde criança.

Os dias seguintes foram ainda melhores. Enquanto muita gente aproveitava a viagem para conhecer o país,nós saíamos atrás de jogos,ingressos,estádios,histórias e qualquer coisa que tivesse cheiro de Copa do Mundo. Sem perceber,eu estava descobrindo algo importante: gostava tanto do que acontecia ao redor dos jogos quanto dos jogos em si.

Viagem à Copa do Mundo da África — Foto: Arquivo pessoal

Foi aí que aconteceu a segunda consequência daquela pesquisa no Google.

Um amigo publicitário que morava na China mantinha um blog num jornal mineiro e me convidou para escrever durante a Copa. A proposta era divertida. Enquanto ele contava como era viver num país distante do Mundial,eu relataria a experiência de estar no epicentro da festa.

Aceitei. Comecei a escrever sobre as ruas,os torcedores,os encontros,os pequenos absurdos da Copa. Descobri duas coisas. A primeira era que eu gostava mais de contar histórias do que imaginava. A segunda era que algumas pessoas pareciam gostar de lê-las.

O blog foi ganhando leitores,comentários,repercussão. Nada gigantesco. Mas suficiente para plantar uma ideia que nunca havia considerado seriamente. Talvez eu pudesse trocar a História pelo Jornalismo.

Voltei da África do Sul com essa dúvida na cabeça. Ela virou faculdade. A faculdade virou Rio de Janeiro. O Rio virou estágio. O estágio virou profissão. E a profissão,de alguma forma,virou uma sequência de Copas.

Em 2014,na ESPN,tive a sorte jornalística e o azar patriótico de estar dentro do Mineirão no dia do 7 a 1. Em 2018,já no GLOBO,coordenei a cobertura local da Rússia,passando quase 50 dias entre Moscou e São Petersburgo. Desde 2022,da redação do jornal,chefio todo o trabalho no Mundial,agora como editor de Esportes,liderando uma grande e competente equipe espalhada por Brasil e EUA.

Quando conto a história desse jeito,tudo parece muito lógico. Mas não foi. Naquele maio eu era apenas um professor de História meio perdido,olhando para uma imagem sem sentido numa tela de computador.

É justamente isso que mais me fascina quando olho para trás. Aquele desenho parecia uma colagem caótica de elementos que não combinavam entre si. Minha vida também era. Havia futebol,História,IBGE,aulas particulares,uma Copa na África,um blog improvisado,um sonho antigo de morar no Rio e nenhuma conexão evidente entre essas peças.

Até que elas começaram a se encaixar.

Dentro de alguns dias começa mais uma Copa do Mundo. A newsletter também vai aparecer mais vezes na sua caixa de entrada. É trabalho,mas também uma forma de devolver tudo que a Copa me deu. Vamos falar dos jogos,claro,mas também das cidades,dos personagens,das histórias improváveis e dos acasos que fazem do torneio algo maior do que futebol.

Porque,no fim das contas,foi justamente numa dessas histórias paralelas que eu vim parar aqui.

Desde aquela madrugada aprendi que durante uma Copa do Mundo convém nunca duvidar muito do acaso. Às vezes ele aparece na forma de um gol inesquecível. Às vezes de uma viagem. E,de uma palavra escondida numa imagem aleatória da internet que acaba empurrando uma vida inteira para outra direção.

Bem-vindos à Copa.

Uma das maiores invenções da humanidade.

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